Anoxia neonatal pode abalar o vínculo entre a mãe e o bebê

17/03/2011

 

O desenvolvimento da linguagem fica ameaçado com o prejuízo para a constituição psíquica da criança


A anoxia, falta ou diminuição de oxigenação no cérebro do bebê, que ainda está em formação, no nascimento, ocorre por algum problema no momento do parto. Essa emergência médica pode deixar sequelas importantes para o recém-nascido do ponto de vista orgânico e acarretar problemas relacionados à constituição psíquica desse bebê.

 

A fonoaudióloga e psicanalista Eloisa Tavares de Lacerda explicou que o comprometimento da saúde psíquica está relacionado a algum abalo na relação do bebê com a sua mãe provocado pelas difuldades logo ao nascer. A Anoxia pode desencadear problemas que coloquem em risco a vida do bebê ou que exijam uma longa internação, distanciando mãe e filho. O risco ou uma sequela que irá atrapalhar o desenvolvimento físico da criança pode provocar uma reação negativa na mãe, que passa a não investir no bebê. “Se a relação da mãe com o bebê for abalada, a mãe pode desinvestir no bebê, acarretando uma vivência que não gera satisfação para nenhum dos dois”, afirmou.

 

Segundo ela, a Neurociência vem pesquisando e constatou que quando o vínculo mãe-bebê oferece tranquilidade e é organizador das tensões do bebê, as reações cerebrais são positivas. Esse vínculo precisa ser capaz de atender às necessidades, como fome, sede ou frio, e aquelas de ordem mais subjetivas, como as sensações de desamparo. A satisfação que o bebê sente com um vínculo seguro libera endorfinas pelo Sistema Nervoso Central (SNC), contribuindo para o processo de maturação neurológica e garantindo uma maior rede neural com aumento de células e de sinapses ao longo de seu desenvolvimento desde os primeiros dias de vida.

 

No entanto, quando o vínculo do bebê com sua mãe não é estável e é desorganizador, não o ajuda em suas tensões físicas e emocionais, o Sistema Nervoso Central libera cortisol. “Esse é o hormônio responsável pelo estresse em adultos, e, pasme, em bebês também!”, explicou Eloisa. De acordo com ela, essa liberação prejudica a constituição da rede neural e pode acarretar muitos danos ao desenvolvimento físico e emocional da criança.

 

A fonoaudióloga considera que a linguagem é da ordem da constituição psíquica, da subjetividade. No início da vida, a relação entre mãe e bebê não é verbal. Eles interagem de uma forma “transmodal”, ou seja, por meio de várias modalidades: sensações, percepções, órgãos dos sentidos – visão, audição, olfato, tato -, e de um encontro corporal – rítmico, tônico, gestual. Essa comunicação entre os dois irá se modificar com a entrada do bebê na linguagem, por volta dos dois anos de idade. Ele se torna um falante quando deixa de ser falado pelo outro, geralmente a mãe, que interpreta que ele está chorando porque está com fome ou porque quer ir dormir.

 

Em geral, os profissionais esperam a criança já ser considerada um falante para verificar se ela tem algum problema de linguagem: distorções de articulação, dificuldades de organização de pensamento ou simbolizações pobres. Uma das sequelas possíveis da anoxia ao nascimento é um atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, mesmo quando o bebê não apresenta uma lesão neurológica.

 

Quando isso acontece, a fonoaudióloga e psicanalista acredita que houve algum prejuízo no vínculo entre o bebê e a mãe. O atraso no desenvolvimento físico e emocional do bebê é observado em casos de dificuldades dos pais no enfrentamento das dificuldades com o parto e as suas consequências.

 

“Ou pelo nascimento com problemas para o bebê, ou por causa da fragilidade de mãe e pai em bancar o vínculo em situações extremadas de estresse, justamente num momento muito delicado para eles, pois estão tendo que fazer a passagem para o “se tornar pai” e o “se tornar mãe”. Quando ocorre quase uma ruptura deste vínculo inaugural para o bebê, uma das formas de reagir a isto é não se desenvolvendo dentro do esperado para sua idade”, explicou.

 

Eloisa adverte para o risco de uma dinâmica negativa comprometer a relação do bebê com os pais. Na medida em que ele não consegue ir superando as etapas do desenvolvimento, cria-se uma “retroalimentação” da precariedade do investimento materno. “O bebê é pouco responsivo e sua mãe acaba investindo menos nele, isto poderia chegar a casos extremos, quando o bebê não consegue ir se desenvolvendo também do ponto de vista cognitivo e acaba apresentando um rebaixamento intelectual”.

 

A fonoaudióloga esclarece que essa compreensão, como psicanalista, de que a linguagem está profundamente amparada na qualidade do vínculo afetivo com o bebê, não deixa de fora os fatores como erros inatos do metabolismo, mais relacionados à constituição orgânica do bebê.

 

Eloisa também considera importantíssimo que os exames de pré-natal ultrapassem o limite de avaliação das condições físicas da gestante e do feto. Na opinião dela, durante a gravidez, os pais deveriam ser acompanhados, avaliados e orientados de acordo com as condições emocionais que apresentam para assumir as funções materna e paterna.

 

“É importantíssimo falar em detecção já no período pré-natal de algo que poderá se tornar grave depois do nascimento, pois hoje é sabido que um pré-natal deveria abarcar as condições emocionais da mãe e do pai e como eles estão dando mostras de sua fragilidade ou de sua possibilidade de recursos internos que ajudariam a estarem mais organizados, do ponto de vista emocional, para cuidarem de seu bebê e deles próprios”, afirmou.

 

Segundo ela, na França, a rede pública já oferece o que vem sendo chamado de “perinatalidade”, o pré-natal do ponto de vista da organização psíquica da mãe e do pai, e “parentalidade”, a sustentação que é dada a partir do momento em que um homem e uma mulher se tornam pai e mãe.

 

A psicanalista explicou que o período de inauguração das figuras de pai e mãe quando nasce o primeiro filho é muito delicado para homens e mulheres. Eles saem da condição de filho e filha para a condição de pai e mãe. Até o nascimento, ambos só se conhecem como filhos e como homem e mulher. “A maternidade e a paternidade requer ajustes importantes e, para alguns, muito trabalhosos, para virarem papai e mamãe! Imagine, então, quando o bebê nasce com alguma dificuldade orgânica!”, lembrou.

 

 

Eloisa Tavares de Lacerda é fonoaudióloga e psicanalista, coordenadora do Serviço de Acolhimento Relação mãe/bebê da Derdic – PUC-SP e do curso de especialização Clínica Interdisciplinar com o bebê – a saúde física e psíquica na primeira infância da Cogeae/PUC-SP